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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Homem, de 20 a 25 anos



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Pitacos
 

Roupas, documentos, lembranças. Põe tudo na mala, parte pro aeroporto e segue teu rumo. Livros, guias e mapas se misturam com pequenos presentes de amigos especiais, algumas cartas e fotos. Saudade aliviada pela imagem. Distância encurtada. Legião, Paralamas, Los Hermanos, Skank, Chico, Tom, Tim, Vinícius, Toquinho, Milton, Maria Rita, Djavan, Nando Reis, Marisa Monte. Guarda tudo na sacola que sempre tem um lugar sobrando. Deixa um pouco de lado a apreensão, o medo ou a dúvida em relação ao desconhecido. Antes que o avião decole, dá uma última espiada pela janela, deixa escapar um sorriso e fecha os olhos. Pensa: quando eles se abrirem de novo, nada será como antes. Voa.   

Até a volta.

Acessem: www.pitacosdocanada.zip.net



 Escrito por Fabio às 12h00 [] [envie esta mensagem]



Noite épica no Morumbi

O trânsito caótico até o Cícero Pompeu de Toledo denunciava que não se tratava de um jogo normal. Ainda mais pra uma torcida que se acostumou a ver sua equipe brilhando em competições internacionais no início da últma década e que, por força das circunstâncias (times medíocres + diretorias incompetentes), passou dez anos longe da Libertadores da América. Nos arredores do Morumbi, uma multidão que parecia ter entrado em uma máquina do tempo qualquer e voltado aos tempos gloriosos de Raí, Telê, Zetti, Cafu e Müller, nomes que cravaram o nome do São Paulo na elite do futebol mundial.

Mas não há dúvidas de que aquilo são águas passadas. Um simples Rosario Central, modesto time argentino, é suficiente pra escancarar as fragilidades de um São Paulo que não tem um meio-campo à altura de suas tradições tampouco uma dupla de zaga confiável - embora esta última seja infinitamente melhor que Jeans e Júlios Santos que nos atormentaram nos últimos anos.

Logo nos primeiros minutos, um baque. Marquinhos, medíocre, perde a bola e entrega o ouro. Gol do aguerrido time de Rosário, um a zero, desespero contido entre quase 70 mil pessoas. A catástrofe parecia inevitável quando nosso melhor jogador desperdiçou uma cobrança de pênalti e jogou por terra a chance do empate. A certeza: quando Luís Fabiano está mal (foi o caso), o São Paulo está fadado a uma atuação ruim. O que nos salvaria de mais um triste capítulo de derrotas em partidas decisivas?

Impossível dizer, prever ou imaginar que fortes emoções ainda estariam reservadas para as duas últimas horas daquela quarta-feira 12. No segundo tempo, o Tricolor continuava encontrando dificuldades diante da forte marcação argentina. Mas os dois gols do renegado Grafite - quem diria! - nos levariam, ao menos, para o martírio dos pênaltis. Bom sinal? Vá saber. Mas que as doces lembranças das decisões na marca da cal dos tempos de Telê Santana voltaram à mente, é fato.

À nossa frente, uma simpática velhinha, mais ou menos 70 anos, sofria sossegadamente. Não explodia em palavrões ao árbitro, aos adversários ou a nossos próprios jogadores - como nós -, mas fazia parte, a seu modo, da mesma apreensão que tomava conta do Morumbi. Seriam dez ou quinze minutos que valeriam um sonho. "Não vou olhar nenhuma cobrança", nos disse a Senhora Tricolor.

Pois olhamos, ao contrário dela. Cicinho bate. Perde. O goleiro argentino, uma mistura do nefasto Chilavert e do genial Andre Agassi, parecia mesmo estar próximo da consagração como o herói do jogo. Em seguida, todos convertiam. Rogério, ídolo inconteste, acertava os cantos. Mas não pegava. Até que chegou sua vez de cobrar, e guardar. Agora, teria de defender a cobrança do Agassi argentino.

Pensei em fazer como a velhinha à minha frente. Tapar os olhos, não ver a cobrança, só ouvir a reação das arquibancadas e, dependendo de como esta se desenrolasse, me preparar para a euforia ou para a decepão. Mas desisti. De nada adiantaria se esconder. Estávamos ali, sonhando com a volta das glórias do passado, imaginando que a qualquer momento o martírio chegaria ao final. Ele pegaria, tinha de pegar. E pegou.

Morumbi explode. Vibração, palavrões, algumas lágrimas e muita moral. Gabriel, outro severamente criticado, bate conscientemente bem. Agora, de novo, era Rogério contra quem viesse. Era nosso maior ídolo, a personificação do jogador-torcedor, do profissional da bola que não mais existe, do único remanescente da época áurea do bicampeonato mundial.

A cobrança. A defesa. A classificação mais sofrida de nossas vidas. A simpática velhinha, agora chorando copiosamente abraçada ao netinho de uns sete anos, estufa o peito e diz. "Não falei? Não falei?". No campo, cercado por um batalhão de repórteres, o capitão do São Paulo repetia as palavras que os milhares que lotavam as arquibancadas entoavam. "Isso daqui é a minha vida", repetia, com uma pontinha de um exagero absolutamente compreensível.  

Na saída, já sem voz, acompanhávamos a multidão em direção ao carro. De nada nos importava se demoraríamos três e horas e meia pra chegar em casa. Ou se tínhamos plena consciência de que o time do São Paulo provavelmente sofrerá ainda muito mais se quiser mesmo faturar o tri. Por que pensar em Boca Juniors, Santos ou São Caetano? Não agora. Não naquela noite. Não até a próxima batalha, quarta-feira que vem, contra os venezuelanos do Deportivo Táchira.

Naqueles momentos pós-noite épica, só nos restava lembrar do que tínhamos vivido há pouco. Nos bastava o agradecimento ao maior goleiro que já passou pelo Morumbi, à sorte da entrada de Grafite, à infelicidade da péssima cobrança de pênalti do goleiro rival e, sobretudo, ao fato de torcermos para o São Paulo Futebol Clube. Quem participou desse sonho real, inesquecível e sublime, pode, por que não, acreditar que mais uma estrelinha dourada esteja estampada em nossa camisa a partir de dezembro.

Em casa, esgotamento misturado com êxtase. "Foi a maior partida da minha vida", confessou o cinqüentão do meu pai. Sorri, deitei na cama e deixei de lado a camisa 10 que um dia já foi vestida por Raí. Será que tudo não passou de um sonho? Até agora não sei ao certo. Sonhemos, sim, que é o melhor a se fazer.    



 Escrito por Fabio às 14h30 [] [envie esta mensagem]



Expectativa. Apreensão. Excitação.

[E muita, muita saudade antecipada...]

Trinta dias.



 Escrito por Fabio às 21h11 [] [envie esta mensagem]



Requião 2006. Por que não?

Quem assistiu ao Canal Livre, da Band, neste domingo, e também estava absolutamente cético em relação à classe política brasileira, pôde dar força a uma pontinha de otimismo: Roberto Requião, do PMDB paranaense, comprovou todas as boas referências que, meio de longe, já tinha sobre ele.

O melhor governador do Brasil, que faz o Paraná remar contra maré da recessão e apresentar índices de crescimento econômico e aumento dos postos de trabalho no primeiro trimestre de 2004, não deixou pergunta sem resposta a Carlos Nascimento e Fernando Mitre. Trata-se da única grande liderança política brasileira em atividade no poder que não esconde suas posições favoráveis ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, que combate a ganância dos latifundiários ou a recente "máfia dos pedágios" em seu estado e que, no aspecto econômico, se opõe fortemente à política conservadora de Palocci e Meirelles.

O melhor de tudo isso é que Requião não adota um discurso barato. É claro que há um interesse político de se viabilizar como contraponto ao governo Lula, mas é fácil constatar que no poder o peemedebista torna práticas suas idéias e reais seus valores ideológicos. Ele não é um caminho plenamente viável de oposição ao governo atual por simples birra ou interesse pelo Planalto (até porque, como disse reiteradas vezes na entrevista deste domingo, faz parte da base de apoio a Lula e ainda crê, coitado, que a esperança não foi derrotada pelo medo), mas por demonstrar, na fala e na ação, que dá pra gente acreditar em um Brasil que caminhe por outros rumos.

É verdade que Requião faz parte do partido mais fisiológico deste país, cujos representantes de maior impacto político são gente como Sarney, Temer, Quércia e Calheiros. Mas não ando lá dando muita bola pra esse negócio de partido político, sobretudo depois de um ano e quatro meses de governo do PT por essas bandas. Quero alguém que me represente, que sirva e atenda aos verdadeiros interesses da população, que questione e combata a política neoliberal de subserviência ao FMI, que não mude de comportamento após colocar a faixa no peito. E Requião não mudou, ao menos no Paraná.

Por mais que relute, o entrevistado do Canal Livre de ontem deve naturalmente ser uma das forças de oposição nas eleições de 2006. Pelo PSDB, teremos Serra, Jereissati, Alckmin, Aécio ou, pasmem, FHC; pelo PT, com a velha e desbotada estrela no peito, lá estará o Barbudo prometendo mudar de verdade em seu segundo mandato; pelo novo partido da esquerda expulsa do PT, alguma Heloísa Helena ou Babá surgirá pra dividir o meio ponto percentual de sempre com o eterno Zé Maria, do PSTU. Então, por que não Requião? Na pior das hipóteses, será mais uma decepção política pra um eleitor que ainda insiste em acreditar.

***

Além de firmeza e competência, o governador do Paraná esbanja bom humor. Não que simpatia seja quesito indispensável a um chefe de Estado - comenta-se, por exemplo, que George Walker Bush e Ariel Sharon também são muito bem-humorados -, mas quem não se diverte com as tiradas impagáveis do Hugo Chávez, por exemplo?

Na entrevista, Roberto Requião soltou várias delas. Quando a dupla Nascimento-Mitre se esbaldava nas críticas tendenciosas ao MST, lá pelas tantas, o entrevistado disparou: "Vou pedir um pai-de-santo aqui na Band, pra 'dessatanizar' o MST". Em uma discussão sobre os transgênicos, soltou essa: "Enquanto não ficar definitivamente comprovado que eles (os transgênicos) realmente não fazem mal algum, meu estado não vai usar essa 'porcaria'!".

Mas a melhor de todas estava reservada pro fim da entrevista, quando Carlos Nascimento citou as denúncias feitas pela Folha sobre parentes de Requião supostamente empregados no governo paranaense. Depois de negar veementemente a informação, o futuro presidenciável emendou: "O Frias (Otávio Frias Filho, diretor-editorial da 'Folha') deve estar bravo porque não tem nenhum parente dele no governo do Paraná".

 Escrito por Fabio às 18h01 [] [envie esta mensagem]



A Rocinha é aqui

No processo de checagem, já havíamos encontrado nos registros da Polícia Civil mais 276 casos de vítimas envolvidas em processos agora na área da Grande São Paulo, dentro do universo dos 2.303 inocentes mortos na capital. Assim, o cruzamento das duas fontes judiciárias nos permite afirmar com segurança: se em um total de 3.523 vítimas da PM por nós identificadas, 1.496 eram criminosas - o que representa 42,6 por cento -, os outros 57,4 por cento nunca haviam praticado crimes na Grande São Paulo. Identificamos 2.027 inocentes assassinados pelos matadores da PM.

Rota 66: A História da Polícia que Mata, por Caco Barcellos

Além da violência propriamente dita, o caos na comunidade da Rocinha, no Rio de Janeiro, nos dá um monte de motivos pra chateação. Um deles, e não me chamem de implicante, é o reducionismo ignorante feito pela mídia.

De dez dias pra cá, só se fala em Rocinha. Os moradores da "favela" (não seria o termo "bairro" mais apropriado para um local em que moram 56 mil pessoas?) são procurados por jornalistas que, coitados, são obrigados a fornecer imagens chocantes e depoimentos desconexos aos telespectadores (leitores, ouvintes, o que seja). Nada de discussão profunda!

O tráfico é, desde sempre, um câncer do Brasil. E nunca foi tratado com seriedade pelo simples motivo de que não estamos em um país sério. É chocante que um povo tão culto politicamente com o carioca (basta nos lembrarmos de Leonel Brizola e da enorme votação de Lula em 1989) tenha eleito Garotinho e, depois, Rosinha Matheus para o governo do Estado, mas a incompetência irritante do casal não é menor que a morosidade das autoridades federais, por exemplo.

Segurança é questão nacional, prioritária em qualquer república que tenha um pingo de respeito por seus cidadãos. Os anos perdidos com a administração tucana só serviram para que fossem divulgados planos e mais planos de segurança em todo o país. Tudo no papel, a cada crise que explodia, sem que nada de concreto fosse realizado depois. Com o governo Lula, então, nem se fala. Pra decidir se é necessário enviar tropas do Exército ao Rio já é uma dificuldade, quanto maior seria pra formular um plano realmente eficaz de combate ao crime organizado...

O problema é muito maior que a simples "captura" (não é assim que os policiais dizem?) de Dudus, Edus, Cadus, Urubus, ou quem quer que seja. A questão envolve corrupção nas entranhas do poder judiciário, relação íntima entre o poder público, a polícia e os reis do tráfico, falta de controle sobre nossas fronteiras territoriais (verdadeiros "paraísos" para quem quer adquirir droga contrabandeada) e a tão obviamente comentada falta de políticas sociais consistentes que gerem mais emprego e educação e menos violência e marginalidade.

A guerra do tráfico nos morros da Rocinha é tão grave como as chacinas da polícia paulista no Capão Redondo ou as balas perdidas que podem nos ferir (mortal e moralmente) a cada esquina de São Paulo. O Brasil é um dos países mais violentos do planeta por razões conhecidas por todos, mas combatidas por ninguém.

Daqui a três meses, quando a poeira tiver baixado na grande imprensa, seria interessante abandonarmos nosso medo de classe média e darmos uma passada na Rocinha ou no Capão. Lá estarão eles, matando, morrendo e traficando, com a conivência de muita gente graúda que tenta fazer bonito sob os holofotes. E de que terá adiantado tanto alarde e tanta espetacularização da tragédia social?

Malditos holofotes são esses, aliás, que deturpam e moldam conceitos falsos, ao invés de debater idéias e sugerir alternativas.

 Escrito por Fabio às 14h19 [] [envie esta mensagem]