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A Rocinha é aqui

No processo de checagem, já havíamos encontrado nos registros da Polícia Civil mais 276 casos de vítimas envolvidas em processos agora na área da Grande São Paulo, dentro do universo dos 2.303 inocentes mortos na capital. Assim, o cruzamento das duas fontes judiciárias nos permite afirmar com segurança: se em um total de 3.523 vítimas da PM por nós identificadas, 1.496 eram criminosas - o que representa 42,6 por cento -, os outros 57,4 por cento nunca haviam praticado crimes na Grande São Paulo. Identificamos 2.027 inocentes assassinados pelos matadores da PM.
Rota 66: A História da Polícia que Mata, por Caco Barcellos
Além da violência propriamente dita, o caos na comunidade da Rocinha, no Rio de Janeiro, nos dá um monte de motivos pra chateação. Um deles, e não me chamem de implicante, é o reducionismo ignorante feito pela mídia.
De dez dias pra cá, só se fala em Rocinha. Os moradores da "favela" (não seria o termo "bairro" mais apropriado para um local em que moram 56 mil pessoas?) são procurados por jornalistas que, coitados, são obrigados a fornecer imagens chocantes e depoimentos desconexos aos telespectadores (leitores, ouvintes, o que seja). Nada de discussão profunda!
O tráfico é, desde sempre, um câncer do Brasil. E nunca foi tratado com seriedade pelo simples motivo de que não estamos em um país sério. É chocante que um povo tão culto politicamente com o carioca (basta nos lembrarmos de Leonel Brizola e da enorme votação de Lula em 1989) tenha eleito Garotinho e, depois, Rosinha Matheus para o governo do Estado, mas a incompetência irritante do casal não é menor que a morosidade das autoridades federais, por exemplo.
Segurança é questão nacional, prioritária em qualquer república que tenha um pingo de respeito por seus cidadãos. Os anos perdidos com a administração tucana só serviram para que fossem divulgados planos e mais planos de segurança em todo o país. Tudo no papel, a cada crise que explodia, sem que nada de concreto fosse realizado depois. Com o governo Lula, então, nem se fala. Pra decidir se é necessário enviar tropas do Exército ao Rio já é uma dificuldade, quanto maior seria pra formular um plano realmente eficaz de combate ao crime organizado...
O problema é muito maior que a simples "captura" (não é assim que os policiais dizem?) de Dudus, Edus, Cadus, Urubus, ou quem quer que seja. A questão envolve corrupção nas entranhas do poder judiciário, relação íntima entre o poder público, a polícia e os reis do tráfico, falta de controle sobre nossas fronteiras territoriais (verdadeiros "paraísos" para quem quer adquirir droga contrabandeada) e a tão obviamente comentada falta de políticas sociais consistentes que gerem mais emprego e educação e menos violência e marginalidade.
A guerra do tráfico nos morros da Rocinha é tão grave como as chacinas da polícia paulista no Capão Redondo ou as balas perdidas que podem nos ferir (mortal e moralmente) a cada esquina de São Paulo. O Brasil é um dos países mais violentos do planeta por razões conhecidas por todos, mas combatidas por ninguém.
Daqui a três meses, quando a poeira tiver baixado na grande imprensa, seria interessante abandonarmos nosso medo de classe média e darmos uma passada na Rocinha ou no Capão. Lá estarão eles, matando, morrendo e traficando, com a conivência de muita gente graúda que tenta fazer bonito sob os holofotes. E de que terá adiantado tanto alarde e tanta espetacularização da tragédia social?
Malditos holofotes são esses, aliás, que deturpam e moldam conceitos falsos, ao invés de debater idéias e sugerir alternativas.
Escrito por Fabio às 14h19
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