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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Homem, de 20 a 25 anos



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Noite épica no Morumbi

O trânsito caótico até o Cícero Pompeu de Toledo denunciava que não se tratava de um jogo normal. Ainda mais pra uma torcida que se acostumou a ver sua equipe brilhando em competições internacionais no início da últma década e que, por força das circunstâncias (times medíocres + diretorias incompetentes), passou dez anos longe da Libertadores da América. Nos arredores do Morumbi, uma multidão que parecia ter entrado em uma máquina do tempo qualquer e voltado aos tempos gloriosos de Raí, Telê, Zetti, Cafu e Müller, nomes que cravaram o nome do São Paulo na elite do futebol mundial.

Mas não há dúvidas de que aquilo são águas passadas. Um simples Rosario Central, modesto time argentino, é suficiente pra escancarar as fragilidades de um São Paulo que não tem um meio-campo à altura de suas tradições tampouco uma dupla de zaga confiável - embora esta última seja infinitamente melhor que Jeans e Júlios Santos que nos atormentaram nos últimos anos.

Logo nos primeiros minutos, um baque. Marquinhos, medíocre, perde a bola e entrega o ouro. Gol do aguerrido time de Rosário, um a zero, desespero contido entre quase 70 mil pessoas. A catástrofe parecia inevitável quando nosso melhor jogador desperdiçou uma cobrança de pênalti e jogou por terra a chance do empate. A certeza: quando Luís Fabiano está mal (foi o caso), o São Paulo está fadado a uma atuação ruim. O que nos salvaria de mais um triste capítulo de derrotas em partidas decisivas?

Impossível dizer, prever ou imaginar que fortes emoções ainda estariam reservadas para as duas últimas horas daquela quarta-feira 12. No segundo tempo, o Tricolor continuava encontrando dificuldades diante da forte marcação argentina. Mas os dois gols do renegado Grafite - quem diria! - nos levariam, ao menos, para o martírio dos pênaltis. Bom sinal? Vá saber. Mas que as doces lembranças das decisões na marca da cal dos tempos de Telê Santana voltaram à mente, é fato.

À nossa frente, uma simpática velhinha, mais ou menos 70 anos, sofria sossegadamente. Não explodia em palavrões ao árbitro, aos adversários ou a nossos próprios jogadores - como nós -, mas fazia parte, a seu modo, da mesma apreensão que tomava conta do Morumbi. Seriam dez ou quinze minutos que valeriam um sonho. "Não vou olhar nenhuma cobrança", nos disse a Senhora Tricolor.

Pois olhamos, ao contrário dela. Cicinho bate. Perde. O goleiro argentino, uma mistura do nefasto Chilavert e do genial Andre Agassi, parecia mesmo estar próximo da consagração como o herói do jogo. Em seguida, todos convertiam. Rogério, ídolo inconteste, acertava os cantos. Mas não pegava. Até que chegou sua vez de cobrar, e guardar. Agora, teria de defender a cobrança do Agassi argentino.

Pensei em fazer como a velhinha à minha frente. Tapar os olhos, não ver a cobrança, só ouvir a reação das arquibancadas e, dependendo de como esta se desenrolasse, me preparar para a euforia ou para a decepão. Mas desisti. De nada adiantaria se esconder. Estávamos ali, sonhando com a volta das glórias do passado, imaginando que a qualquer momento o martírio chegaria ao final. Ele pegaria, tinha de pegar. E pegou.

Morumbi explode. Vibração, palavrões, algumas lágrimas e muita moral. Gabriel, outro severamente criticado, bate conscientemente bem. Agora, de novo, era Rogério contra quem viesse. Era nosso maior ídolo, a personificação do jogador-torcedor, do profissional da bola que não mais existe, do único remanescente da época áurea do bicampeonato mundial.

A cobrança. A defesa. A classificação mais sofrida de nossas vidas. A simpática velhinha, agora chorando copiosamente abraçada ao netinho de uns sete anos, estufa o peito e diz. "Não falei? Não falei?". No campo, cercado por um batalhão de repórteres, o capitão do São Paulo repetia as palavras que os milhares que lotavam as arquibancadas entoavam. "Isso daqui é a minha vida", repetia, com uma pontinha de um exagero absolutamente compreensível.  

Na saída, já sem voz, acompanhávamos a multidão em direção ao carro. De nada nos importava se demoraríamos três e horas e meia pra chegar em casa. Ou se tínhamos plena consciência de que o time do São Paulo provavelmente sofrerá ainda muito mais se quiser mesmo faturar o tri. Por que pensar em Boca Juniors, Santos ou São Caetano? Não agora. Não naquela noite. Não até a próxima batalha, quarta-feira que vem, contra os venezuelanos do Deportivo Táchira.

Naqueles momentos pós-noite épica, só nos restava lembrar do que tínhamos vivido há pouco. Nos bastava o agradecimento ao maior goleiro que já passou pelo Morumbi, à sorte da entrada de Grafite, à infelicidade da péssima cobrança de pênalti do goleiro rival e, sobretudo, ao fato de torcermos para o São Paulo Futebol Clube. Quem participou desse sonho real, inesquecível e sublime, pode, por que não, acreditar que mais uma estrelinha dourada esteja estampada em nossa camisa a partir de dezembro.

Em casa, esgotamento misturado com êxtase. "Foi a maior partida da minha vida", confessou o cinqüentão do meu pai. Sorri, deitei na cama e deixei de lado a camisa 10 que um dia já foi vestida por Raí. Será que tudo não passou de um sonho? Até agora não sei ao certo. Sonhemos, sim, que é o melhor a se fazer.    



 Escrito por Fabio às 14h30 [] [envie esta mensagem]